sábado, 30 de janeiro de 2016

o que dirias?

Tentar imaginar o que não se viveu junto é incluir-te neste jogo troca o passo em que os ensinamentos chegam de todos os lados menos do ponto sul. Procuro encontrar a melhor forma de te acordar dos anos repetidos que assumem agora figuras disformes e cavam a cova em corredores plantados em alamedas verdes. O que é isto, então? Perdeste o dom de te agarrares à morte, é isso? Podes deixá-la por um bocadinho, haverá sempre verde aqui à tua espera. Não estarei lá, sabes disso. O corpo não aguenta as gerações entregues à humanidade e isso é triste. Já sei, não dirias triste. Diferente?



por IMM

terça-feira, 7 de abril de 2015

baias direccionais

A inexplicável rotunda do amor. Pára, não cedas passagem, sigamos em frente os dois, lado a lado, vês como cabemos, a faixa da vida é tão grande e apetecível para os nossos corpos. Acordo sem ter a certeza de ter deixado fechado o baú repleto de antigos, estás tão bem sossegado ao meu lado, dormes sobre o meu peito e respiras as promessas feitas na noite anterior sem medo de penalizar o regime probatório a que dedico as minhas superstições. Confundo a tua boca com o mar azul perdido em vales e placas de património natural mas é esta baia direccional que me leva até ti, corto caminho, continuas aqui ao lado e és tão bonito. É tão bonito ver-te ficar. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

ombreira pintada de fresco

O copo pousa na ombreira pintada de fresco, enquanto o ruído dos carros vibram a janela precocemente virada para o oeste do que há-de vir.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

fervedor

Levanta-se a custo do sono pesado; a água aquece no fervedor e cheira a infâncias perdidas em anos temporários. A mão lembra aquela vez em que o aconchego dos temporais servia para alinhar os corpos em conjunto, para saudar a família dispersa e acumular os sonhos, porque a vida ainda era os anos todos que faltavam vir. Na minha alcofa já só há ar, o corpo sumiu-se na oxigenação dos dias; as pernas doem-me em dias de baluta e esfrego os olhos, sempre à mesma hora, para lembrar aquele sono. Aconchega-me e vejo o fervedor, caminha para ele. Não o alcança, já não existe. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

movediço nas águas


Com menos gostos invadi o futuro. Já não creio nos habitantes de curta altura nem nas barbas movediças encostadas ao punhal canhoto. Espero eternamente na sensação frágil de cair em desespero em cada passo jogado em tabuleiros cinzentos. A corda treme a cada empurrão, o coração acorda a cada radiografia mal noticiosa, a caneta esfrega a assinatura da morte e espero. Conto os dias em simultâneo de um relutar hesitante e movediço nas águas que lembram a infância. Águas tão belas como as que vimos juntos um dia, no caminho para casa. Ou talvez as férias à beira da saudade dos tempos vindouros. Tenho a sensação de que me alongo na expectativa vã de me enfiar no casaco de peles que a minha Avó me prometeu. A velha, a gasta. Acordo e espero. É dia de ir, de não ficar. O ombro engordurado diz-me que são horas de alterar o movimento circunscrito à calçada portuguesa. Compro os bilhetes e não espero.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Quando

Quando o meu corpo encalhar e a pele seca cair sobre o chão, eu sei que nunca mais te irei ver. Quando o sexo deixar de ser do teu proveito ou as minhas mãos não mais surtirem efeito, eu sei que terás abandonado as horas entregues à imaginação de um amor mútuo construído por mim. Quando os meus olhos ganharem cor baça em vez do verde pelo qual te apaixonaste um dia, estarás tão ausente como eu hoje me sinto de ti. 




Este texto está publicado na edição #77 d'Os Fazedores de Letras

sábado, 30 de agosto de 2014

à mesa

Se eu não souber como morrem as gentes ancoradas ao azul marinho da terra; ver pairar sobre a mesa o silêncio abafador da incerteza do querer estar vivo. Aguarda-se em silêncio o correr dos dias e alegra-se no momento do encontro. Disfarça-se o encanto à medida térrea das gentes saloias. Gente tão bonita. Que transpira o suor recolhido em memória de tempos passados. A aguardente ainda a encolher o passo, ri-se muito à volta da paródia em tardes e noites de café. Pertenço-lhes. Mais do que supus. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

vozes na rádio


Já viste onde estamos? Oiço a tua voz apenas pelo rádio, vasculho os teus novos interesses e amigos, pego em recordações antigas e parecem fugir-me da mão. Que lhes fizeste? Amarraste-as em algum sítio? Diz-me onde estão. A tua voz na rádio é bonita. Lembro-me dela às vezes. E a tua mão direita, ainda escreve? Espero que sim, tinhas jeito para escrever. Por vezes releio aquela dedicatória no livro que me deste, aquele que eu reli tantas vezes nas aulas da Faculdade. E tem tudo a ver com o programa, já viste?

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Caderno 2


Lançado amanhã, dia 5, às 18h na Fyodor.

Até lá, Mãe.









Fyodor Books
Avenida Óscar Monteiro Torres, n° 13, B, Campo Pequeno

domingo, 1 de junho de 2014

equívoco linguístico

Espreme-se as últimas imagens da noite anterior. Vemos ao longe caídas, caminham em passo apressado na esperança de se varrerem pela tarde de verão em que o meu corpo penumbra. Gratos pelos minutos concedidos em contramão, a mentira a ganhar lugar, a passar à frente de palavras ditas em contextos nunca mais repetíveis. Aqueço o frio dos corpos, as roupas dobradas ainda cheiram a tarde de sol. Último dia do mês. Último dia do amor, do que ficou... Não, não, risco a palavra, não se enquadra, equívoco linguístico: termina em "mês". Ponto.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dixit # 1

Dispo-me
Estás sentado junto à janela. Gostas desse lugar? Sentas-te sempre aí quando aqui chegas. Respiras o fumo do cigarro, sabe-te bem. Queixas-te da vida que deixas lá fora e sorrio para ti: convido-te a ficar. É só um quarto, o meu quarto, lugar onde podemos repousar. Estás sentado junto à janela e olho-te com admiração. Nunca saberás como corre o meu corpo quando pressente os teus passos colados à porta da minha casa; quando os meus ouvidos alcançam a tua voz disfarçada pelo comunicador. Chegaste. Entras devagar, pedes licença. Descansa, aqui ninguém nos vê, somos nós: o que basta. Dispo-me da claridade do dia, espero abraçar-te, sinto o teu corpo cansado pelos anos; sinto o teu respirar ofegante tentando acompanhar a rapidez do meu. Ah, és tão bonito. Nunca poderás saber como estremeço quando oiço o teu nome nas ruas ou quando viajo acompanhada pela tua memória. Fica. Alimento-me do teu corpo, dou-te os meus anos em troca. Sugamo-nos noite após noite, descobrimo-nos no repetir dos dias. É isto, sabes. Olho-te uma última vez à janela. Talvez seja hora de me despedir. Vejo nos teus olhos, é a última vez que aí te sentas. Despedes-te do lugar, do frio que entra pelo quadrado envidraçado. Esse olhar que me lanças, também ele carregado de adeus, é o mais bonito que alguma vez me deste. Obrigada, vou guardá-lo. Talvez o emoldure nesse mesmo lugar, atrás de ti. E quando outro homem aí se sentar, vou olhar para ti e segredar-te baixinho: é para ti que me dispo.




Este texto está publicado na Rua de Baixo, na colectânea É Isto

terça-feira, 6 de maio de 2014

1,60m


Encontro a utopia quando te vejo. Os teus olhos tão escuros e cerrados em mim, no meu corpo, atentos à mínima mudança de estado. Queres ficar e agarras a minha mão, dedos finos, elásticos, que servem de carícias nas noites tardias de cansaço, nos dias longos que pensam e te lembram o correr dos anos. Utopia é ver-te afagar o meu cabelo, fazeres nós, arrancares os excessos em queda. É abraçares-me e quase não sentires o meu corpo, de tão pequeno é. A janela está aberta, corre vento e  muros levantam-se lá foram. Ouvem-se gritos, armas apontadas, sensibilidades esquecidas. É para nós, meu amor. Não vês? Não vês que é para nós. Deixa-te ficar, dizes-me. E eu descanso o meu 1,60m junto a ti, com os olhos postos no vidro que ameaça trazer a morte. Ninguém nos vê, sussurras. E não sabes que não são estes motins que me fazem chorar.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

exercício de distanciamento

Engulo-te em cada minuto que passa. Repara como já não te sobra sangue, repara como dei cabo do teu corpo, repara como és infeliz, repara como me odeias, repara como me aproveito de ti, repara como sugo o teu respirar, repara como me és indiferente, repara como finjo gostar que me abraces, repara como imito prazer, repara como gozo com a tua escrita, repara como te engano com os meus olhos, repara como saio da cama a meio da noite, repara como te destapo, reparo como proposito o frio nos teus pés, repara como não espero por ti para jantar, repara como te mato nos meus sonhos, repara como abandono a tua casa, repara como não me importo com a tua cara, repara como olho para outros homens, repara como abro portas a novos olhares, repara como deixo que me desejem, repara como converso com o mundo, repara como te deixo sozinho, repara como te abandono, repara como desisti.

terça-feira, 8 de abril de 2014

jogo de consola

Olho a tua cara de perfil. Tens os olhos atentos num jogo qualquer que passa na televisão. Na boca, o cigarro, que provoca uma expressão confusa embaraçada pelo fumo nos olhos. O cabelo preto tenta disfarçar o desgaste dos anos, o casaco azul, o mesmo daquela tarde de Setembro. A tua boca recorda-me um campo cheio de flores redondas, aperta o charro e espera os meus beijos. A voz, a tua voz. Larga o jogo e vem comigo para casa, faz tanto tempo que não te encontro na minha cama a meio da noite. Sinto falta de acordar e sentir o teu corpo frio na insistência do destapar, do envolver do lençol. Onde está a tua cara a olhar para a minha? Os teus pés que roçam nos meus, o teu cheio a tabaco, a cansaço do dia e espera pelo amor nocturno. Onde estás? Fica só mais um pouco.

quarta-feira, 26 de março de 2014

perder silêncios


Vou perdendo os silêncios a que durante anos me acostumei. Encontro as diretrizes que acreditava desfeitas em nós complexos e tanta, tanta incerteza do fim. Vejo-te na minha cama, respiras devagar, incomoda-te o meu braço sobre a tua barriga, ajeitas, pensas que não vejo, pensas que não assisto à tua manobra de perfeitarmos os nossos corpos em sintonia. Encosto o olho ao canto e vejo que a manhã chegou: o quarto deixa de estar escuro, adivinho o tom do despertador, aguardo a sua chegada dentro de alguns segundos, oiço vozes na cozinha. O dia começou sem nós, vês como não fazemos falta? Deixa-nos ficar aqui, estaremos prontos, assim, amanhã? Repete esse gesto que é apanhares o meu despertador quando ele dispara e abraçares-me de seguida, beijas-me. Choramos os dois, não choramos? Choramos por ter tido que dividir a noite e o amor pelas horas de sono, que amanhã trabalhamos, há ensaios, há e-mails, há propostas. Agarra-me um pouco mais. Não vou deixar-te ir.